“ESCREVENDO NA CONTRAMÃO”
Por que algumas crianças de 4 a 6 anos, em fase de alfabetização, escrevem espelhado?
Vários fatores podem estar relacionados à escrita espelhada. O mais comum relaciona-se à imaturidade dos neurônios, que ainda não permite à criança um domínio completo de posições e direções espaciais. A lateralidade também pode estar indefinida, impossibilitando o aluno de transferir as noções de direita e esquerda para algo externo a si próprio, no
caso, a folha de papel. Ele é capaz, por exemplo, de mostrar sua mão direita, dizer quem está sentado do seu lado esquerdo, mas ainda não identifica o lado direito de um colega à sua frente ou a posição da letra P.
Algumas crianças que espelham ou invertem letras específicas estão, muitas vezes, tentando generalizar a direção da escrita também para o traçado das letras e procuram começá-las sempre por cima e pela esquerda. Então aparecem S. N. G. C. J. virados.
Se constatarmos que o aluno já escreve alfabeticamente, podemos trabalhar com ele as convenções da língua. Criadas para unificar a escrita, essas regras envolvem a ortografia, o espaçamento entre as palavras, o uso de letras maiúsculas e minúsculas e a direção da escrita. No caso, o mais correto é mostrar que você entendeu o que a criança escreveu, no sentido da ortografia, mas que a frase ou palavra está na direção inversa. Peça, então, que reescreva na direção correta.
Muitas vezes, a criança se surpreende ao ser advertida, pois realmente não se deu conta da direção das letras na hora em que as colocou no papel. Mas prontamente apaga e escreve no sentido correto, pois está interessada em buscar a forma padrão do adulto.
Trabalhar com a simetria ou assimetria das letras também leva a criança a perceber que algumas têm lados iguais e que, mesmo escritas diferentes inversamente, não ficam alteradas. São elas: A, I, M, H, O, T, U, V, X (maiúsculas). As demais letras do alfabeto têm lateralidade: E e F, por exemplo.
Em geral, o espelhamento não traz nenhum comprometimento maior. Em torno dos 6, 7 anos, começa a rarear, sendo mais provável que desapareça por volta dos 7, 8 anos, quando a criança já está mais desenvolvida e madura no domínio psicomotor. Se o espelhamento persistir após essa idade, pode haver outros fatores comprometendo o desenvolvimento da criança que pedem o diagnóstico de áreas especializadas, como neurologia e psicopedagogia.
Poucos autores abordam especificamente a questão do espelhamento, por não ser considerado um problema de aprendizagem.
Bettina Aroucha
Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil
Escola Nova Nossa Infância
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