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Era uma vez uma mãe (um pai) que lia

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À família, com carinho

Era uma vez uma mãe (um pai) que lia

Ricardo Fiegenbaum (Jornalista)

Era uma vez uma mãe (ou teria sido um pai?) que, noite após noite, abria um livro de histórias e o lia para seu bebê. Num dia, era uma história de animais que falavam e ensinavam divertidas lições. Noutro, era um conto sobre crianças que tinham de encarar o perigo com muita coragem e com a ajuda salvadora do pirlimpimpim de uma fada madrinha. Às vezes, era a história do natal de um menino em Belém; outras vezes, de um coelho que não botava ovos, mas sabia fazer cestas cheias deles para anunciar que a vida ressurge no amor. Em toda noite, uma história. Em

 

toda história, um mundo de fantasia e de leituras da vida. Muitas e muitas foram as noites em que a história confundiu-se com o sonho infantil, em sono sereno, que veio embalado pela voz amável e carinhosa que lia e lia e lia... Outras tantas vezes, o que embalava o conto era a vontade de ouvir de novo, acompanhada de um olho brilhando e de um jeito terno e quase suplicante de dizer: “Conta outra vez?”. E nessas noites, muitas vezes, foram os olhos maternos ou paternos que sucumbiram ao sono, antes mesmo de terminarem a leitura pela enésima vez.

Um dia, veio a escola. Livros e sacola, lanches e cadernos, beijos e despedidas. Começava um novo capítulo na história da mãe (e do pai) e da criança que, havia poucos dias, ainda era um bebê. Na escola, as figuras dos livros viraram letras. E as letras viraram palavras. As palavras, frases, e as frases tornaram-se histórias, as mesmas histórias, porém, diferentes. É que na leitura infantil, ainda inicial, as palavras não tinham a mesma fluência. A história não tinha encanto. Restava somente a letra sem sua magia, o livro sem sua fantasia.

E a criança não quis saber ler e deixou de gostar dos livros que acalentaram tantos dos seus sonhos e imaginações. Isso aconteceu porque a criança que ouvia a história se via como leitora e, quando começou a aprender a ler, a leitura que conseguia fazer não era igual à imaginada. Então, ela desistiu de ler e experimentou o feitiço do ler-nãotem- graça, que a fechou para os livros. Há muitas histórias em muitas casas, onde o feitiço do ler-não-tem-graça criou os maiores problemas. Fez da escola um tédio, do estudo um vilão e da professora de português, então, uma chata.

A mãe (ou o pai) leitora, que conhecia as artimanhas do ler-não-tem-graça, deu um jeito no feitiço. Ao invés de deixar a criança ler sozinha, tropeçando nas sílabas, começou a ler com ela. Lia uma ou duas páginas da história e deixava um parágrafo ou uma página para o filho. E o ler-não-tem-graça foi perdendo a graça até o dia em que a criança descobriu que há muitos modos de ler uma história e que a história é, na verdade, o jeito que cada qual a lê.

E foi assim que a mãe (e o pai) descansou debaixo do abajur com um livro na mão. Semana após semana, a mãe (e o pai) lia os seus próprios livros, os jornais do dia, as revistas semanais e o que mais se pudesse ler. E, da cadeira da leitura, observava, com o canto do olho e um sorriso de satisfação, que a sua criança a imitava no gesto e no gosto. Passaram a ser companheiros de bibliotecas, de livrarias e feiras de livros. Conversavam sobre seus autores preferidos, suas histórias inesquecíveis e sobre os valores, os medos, as ansiedades, os códigos de convivência que, vindos da fantasia dos livros, iluminavam as suas vidas.

Então, um dia, a criança cresceu. Entrou na adolescência, imaginando dominar toda e qualquer leitura. Mas aí o feitiço do ler-não-tem-graça apareceu de novo, unido agora ao nãoentendo- o-que-leio, porque os livros e os textos ficaram mais difíceis, pediam mais concentração e um esforço de interpretação maior. O prazer da leitura virou padecer na leitura. E de novo a mãe (ou o pai) leitora deu um jeito no feitiço. Dessa vez, também com a ajuda da escola. Ficou junto do filho. Leu com ele os textos e buscou as chaves que podiam abri-los para vencer o não-entendo-o-que-leio. E os textos da escola, da casa, da vida e do mundo, em suas muitas formas de leitura, abriram-se para o menino (para a menina) que queria entender a si próprio, lendo-se a si mesmo e ao seu mundo e as muitas relações possíveis entre a realidade e a ficção.

Foi assim que a criança, filho amado, filha querida, de seu pai e de sua mãe, tornou-se uma leitora, afinal. Não apenas de livros, de letras e conjuntos de letras, de palavras e conjuntos de palavras, mas do mundo e das  coisas que nele acontecem, dos seus desafios e seus caminhos de solução, da vida em sua plenitude e da própria história e do modo como a deseja escrever até o fim. E isso quer dizer que saber ler não tem a ver apenas com livros, mas também e, principalmente, com a vida.